segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Pedido de Fotografia

Eu lhe propus: vamos tirar uma foto? E você me pergunta: Para que? Nesse momento não pude conter um singelo riso: deixa para la... Você tinha medo de mim, como se eu fosse uma conha do mar, uma ostra que vinha para a praia, voltava para o mar e retornava num tempo sem data certa.
 Você tinha medo que eu plantasse uma raiz e eu fosse embora e aquela raiz ficasse e aquela fotografa ficasse. Paixão? Álibi de um testemunho? Dois fossem embora e alguém virasse eclipse e cristal. Não insisti  nessa fotografia, afinal não é bom brincar com essas coisas de eternidade e finitude. Coisa e momento. Sentimento. Dizem que quando Adonai ia falar com Moisés, o monte santo escurecia, acobertava-se de nuvem, raios e fumaça. Adonai, o eterno precisava de coisas volúveis - luz, fumaça, escuro - para se mostrar. Tanto eu como você, alí na eternidade do momento. Será que aquela fotografia tinha o poder de selar algo a mais? Coisa de aliança, flagrante ou ternura?
Continuemos! Você reclinou a cabeça em meu ombro, e disse que tinha olhos claros. Você beijou os meus olhos e minha boca. Longamente. Essa foi a fotografia.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Eu poderia dizer os versos mais lindos
mas tudo o que eu disser será em vão
diante do arrebatamento das ondas do mar
eu poderia dizer versos ardentes
se a minha boca se transmutasse em fogo e brasa
para dizer palavras da natureza do fogo.
e eu mesmo seria inundação e enigma
palavras do coração nem sempre há traduções.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

eu também esperei a chuva passar
ela continuou e eu fui mesmo assim
e se eu disser que fui nômade e presença
ainda acreditareis no meu verso?
Desejo, pergunta e palavra existem brigando
eu também vigiei o sol com minhas pálpebras fechadas
e numa noite dessas enquanto viajava
resolvi estudar cartografia no divã
para entender as cartografias do desejo
andei num mapa, cheio de memórias, linhas e arquipélagos, sertões
encontrava um tesouro de libido em cada parte.
numa dessas encontrei a esfinge, os deuses do egito, moisés e elias em forma de gente humana
perguntadores
eles foram guias que desconstruíam o mapa do édipo
me ajudando a percorrer o não-estabelecido, não era o sol e a lua eternos que diziam meu caminho, mas aqueles sapos, nômades, fiadeiras, jogadores de baralho,
liam minha mão pelas cicatrizes que haviam nela
não liam minha sorte, mas ensinavam a jogar na sorte
carregar ou levar, lugar, permanecer.