quarta-feira, 30 de novembro de 2011

dentro/fora

Nas rajadas da noite
eu fico daqui de fora
olhando o que se passa dentro
há tantas coisas lá fora
há tantas coisas lá dentro

eu fico daqui de dentro
olhando o que se passa fora
como é claro lá fora!
como chove por dentro!

sábado, 26 de novembro de 2011

cosmogonia

O céu se forma


quando o escuro é manchado de luz


pelas ditas estrelas


Nessas cidades há tantos escuros


esperando se tornar céu


buscar estrelas 

domingo, 30 de outubro de 2011

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

ariadne


Não tenho coisa mais certa que essa:
sempre que vou
se precisar, eu volto
compro sempre a passagem de ida
e vou tecendo a das voltas.
Meus caminhos são de Ariadne
eles sabem de outras saídas...

sábado, 24 de setembro de 2011



Nessa pasagem da noite
abro minha biblia de sonhos
e vou lendo meus versículos sanctos de minha história
que vão se misturando na cola cotidiana 
resta ainda mais a procura sobre a vida 
de encontrar a partilha 
de encontrar o quereres desconhecido nas veredas pelos mundos...
mundos que vem e que virão

dos ventos

Os ventos sempre foram os meus confidentes, como também meus conselheiros. Vão arrastando contando os ditos pelos mundos... Arrancando poeira dos despudorados: eita vindimunho! Escandalizando as árvores derrubando suas folhas.

sábado, 17 de setembro de 2011

Das coisas que não vejo 
mas que passam por mim
são tão maiores de grande
que brotam em mim
qual galhos e folhas
que naturam em mim...


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sedentar

Nunca é perdido desejar mais luz ao que se tem
pois a luz em sí, nunca se basta
quanto mais de sí se sacia
nunca se basta


Muita luz neste dia
é algo que não pode faltar
como sempre em outros dias
colheita de caminhos e olhos iluminados


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

versorupestre

Compreendi em minhas andanças que há compreensões que não ultrapassam o pensamento... e se me chamarem nunca digam que estou, mas que já fui, já fui, já... fui...


em versorupestre.blogspot.com

sábado, 20 de agosto de 2011

Mão de cigano

Ele chegou bem perto de mim, estendendo a mão, pedindo que eu lesse a sua mão e falasse sobre o seu destino. Mas de destino eu não sabia, nem de ler pessoas, mas somente ler livros. Tomei um romance de minha biblioteca e falei simplesmente: leia este livro e você se antecipará de muitas coisas...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

sobre a transparência

Hoje pela janela de meu quarto vi pousar um pardal e ele ficou bem pertinho de mim. No entanto, ele não me viu, pois esta janela estava com proteção fumê. Nunca pássaros se aproximaram tanto de mim, não tenho esse dom de São Francisco, mas peguei-me a pensar a respeito do que é a transparência. Vivemos em meio a coisas tão opacas que não vemos tantas belezas ou curiosidades da vida. O opaco impede a visão e nos protegemos sempre em coisas que não dão visibilidade. Se não fosse pelo vidro, eu não teria visto o passarinho... nunca!

sábado, 30 de julho de 2011

nascedouros

Nasce como cresce
cresce como nasce
razões de ser
crescem razões de ser
insistir em ser.

terça-feira, 12 de julho de 2011

sábado, 9 de julho de 2011

Existêncial

Se a arte amardes
o mundo te dará mais vida
te dará mais amores ou dores...
Se a arte amardes
mais coisas sentirá
em uma unica dobra de pele
perceberás além
além do horizonte escondeirijo
do que esconde a pupila
de teus olhos orgânicos
para aceder
suspender.

Transparência

São tantos ventos que sopram em minha fragata
os ventos me tangem
mas eu saio pela tangente
entre tantos tantos 
contaram-me os ventos 
antes mesmo que tivesse alento.
Toda poesia
tem cerceada
alguma melodia.

Esperar





Todo esperar
não vai na cadência de quem espera
mas do outro
que junta os ponteiros de nossa hora.
Salvo quando 
quem age sobre o que se espera
mais ainda assim
esperar vai amaciado...

sábado, 2 de julho de 2011

a morada do homem

Se o homem fora condenado eternamente
pelos deuses
por ter o fogo colhido
deve fazer jus ao que colheu
e ao que perdeu:
de fogo deve ser a morada
de seu coração
de fogo deverá ser suas palavras
e seu Ser
de fogo é onde ele deve conter
de viva luz e calor sua presença
e não frieza ou mornez
carvão ou cinzas.

Com licença, ao sem licença

Com licença, eu quero falar
não se apeie com as coisas que vou dizer
pois coisas se passam em nosso peito
que não medem respeito
ou espaço para crescer.
Quando fui crescendo 
não me avisaram sobre o que era 
felicidade, o sentimento e o amor
não houve conselheiro, livros e advertência
vem e vão embora e ficam sempre de passagem.
Quando fui crescendo
ninguém nunca me avisou sobre o que era 
angústia, medo e a escolha
feito ladrões, vem, vão e assaltam novamente.
Existem coisas dentre tantas outras
que não foram avisadas
não pediram passagem
entram sempre sem convite
acabam sendo criadas
e não passam desapercebidas
em nosso coração.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

seara vermelha

Dá saudades quando se fica
dá esperanças quando se vai
passa o tempo 
e um pouco do tempo se esvai...

dá-se vida quando se planta
dá-se sonhos quando se espera
colhe-se felizes quando se narra
searas, colheitas, escolhas...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

terramar - derramar

Praia rasa
Mar fundo
lado a lado
planície e abismo
mergulho
do profundo ao raso
apenas um passo
terra e mar           
      


terça-feira, 21 de junho de 2011

Os lábios não são de Monalisa





Quando visitava a casa de minha avó, entrava em seu quarto e gostava de remexer suas coisas, às escondidas. Enquanto ela estava nos afazeres domésticos de uma casa sertaneja, revirava, dava voltas, eita menino buliçoso! Mas o que mais me espantava e causava curiosidade era um quadro de uma santa que ficava sempre à beira de sua rede e pregado na parede há milênios. Era uma santa muito galante, como diziam. A face da santa não dizia o que realmente era, e ficava imaginando se era riso ou ciso ou séria, de tão enigmática que era. Parecia que naqueles dias que não fazia coisas certas, ela ficava de cara fechada. Tenho certeza que nem Monalisa é tão digna de mistério como as santas do altar de minha avó e os semblantes de seus santos. 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Muitos desejam
E esperam pela promessa dos milagres
Durante a vida inteira:
Transportar montanhas
Fazer cegos ver
Atravessar o mar vermelho
Destroçar os inimigos
E colocá-los sanguinariamente
debaixo do seu escabelo
Poucos desejam:
Transportar montanhas de orgulho
Retirar a própria cegueira
Dividir mares vermelhos de egoísmos
Destroçar inimigos invisíveis
Que moram dentro de Ti.
Eu só escrevo quando estou fascinado
O fascínio vem e me encanta
E fico cheio dele
Eu não escrevo nunca mais do que uma só palavra
Para não perder a graça
Para não aborrecer
Os cometas nunca são iguais
Nunca são constantes como o cruzeiro do sul é
Ora, eu sou como eles...
Nunca escrevo muito para não aborrecer
Nunca me chatear.
Nunca digo te amo para ser sempre igual
E dizer sempre igual que sou romântico
E quando digo coisas que nunca digo
Creio que te impressiono
.

sábado, 4 de junho de 2011

Prece a Santa Marilyn

Para que Hollywood seja perfeita
apenas falta a felicidade
Santa Marilyn rogai 
para que sejamos dignos 
das promessas de Hollywood.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

fotografias de vazios

Pode-se fotografar o vazio? Talvez possa-se mostrar o quanto as coisas são vazias mostrando coisas e objetos, mas O Vazio não consigo apreender na foto. Fico pensando em como os hiatos e hiâncias são constantes, o quanto as pessoas falam coisas que não condizem com aquilo que querem realmente, alienação a sí mesmos, preenchendo espaços com algodão. Talvez nenhuma pessoa possua o dom de fazer essa proeza de calar o Indomável que há em sí, e fugir das ciladas que percorremos a pé em meio a caminhos escusos. Mapas enganadores recebemos quando começamos a existir e ficamos à mercê do desejo escuso de encontrar a vereda que nos afaste cada vez mais de nossa meta que é dar de cara com o vazio.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Entre o mar e o mono
entre o estar atento e ao sono
entre o múltiplo e o mono
refugiar em zonas de fronteiras

nascedouro de outra cena

O nascedouro da poesia
parte de uma palavra
cerceada
querendo mostrar o outro verso
que carrega consigo

terça-feira, 24 de maio de 2011

aluvião

essa candura de enxergar o rabisco
e ver uma pintura realista, fotográfica


aludir a algo que não se vê completamente
essa paciência de compreender gota a gota


alusão 
a um amigo, a uma fala, a um sonho
parece que está toldado


timbrado para ser realidade
parece que tem que ser alusão
ouro de aluvião

sábado, 14 de maio de 2011

O último adeus



Possas tu dar o último adeus
Levantar a mão e dizer: jamás!
Esquecer e nunca mais voltar
perder e nunca mais achar


possas tu se desfazer das ondas
que vão e voltam trazendo as mesmas mensagens de penas
trazendo notícias, ressacas, dores
e coisas repetidas, caliçadas, ondulantes de outros lugares
(ou dos mesmos?)


não queiras ser amigo das ondas, elas sempre vão e voltam...


Possas tu dar o último adeus que eu sempre quis
de nunca viver de novo as mesmas penas e perdas
acenar uma vez para nunca mais!
Mas o último adeus não existe
enquanto se viver
de sempre dar despedidas a tudo
ao que se tem e ao que sempre se perdeu...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

As mãos de Santa Rita

Em um dia, muito sensibilizado pela beleza de uma obra sacra, entrei em uma capelinha a fim de vê-la melhor. Era uma Santa Rita barroca, bem desgastada pelo tempo, cheia de devoções, fitas e rezas. Realmente, era uma santa que passou por muitas provações, provações de tempos. Notei que era feita de madeira cinzelada, e possuía as mãos destacadas do corpo. Como se o artista tivesse entalhado as mãos para melhor destacar a beleza e sensibilidade. Notei que suas mãos estavam viradas e não pousavam corretamente no crucifixo. A capelinha estava vazia, parecia que poucas pessoas andavam por lá e eu fui tentar tocar em suas frágeis mãos e colocá-las em seu lugar. Mas ao menor toque, elas caíram no chão! Rapidamente coloquei-as de volta, mas do jeito que estavam. Parece que existem coisas que devemos deixar como está. Somente funcionam de uma forma meio torta... meio meio...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

escutar conchas



Quem nunca colocou uma concha no ouvido para escutar as águas do mar? eu já fiz isso muitas vezes e imaginava como era uma praia, um mar, um oceano. Sabe porque? As lesmas quando vão embora guardam dentro de sí o barulho as ondas e vão embora. Vão embora para nunca mais voltar, e guardam para escutar o que aquilo já se perdeu... para ficar pensando nas águas do mar. Tem gente que é que nem concha, vive guardando coisas, para escutar coisas e viver pensando naquilo que um dia foi-se para nunca mais voltar.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O Conselheiro





Naquela casa bonita na bem localizada cidade morava um senhor muito sábio e para o qual corriam muitas pessoas, de diversos lugares para ouvir seus conselhos. Diziam as pessoas que seus conselhos sempre davam certo. Ele como era um senhor bem senhor, de tudo já lera, já passara por muitos caminhos, era como o velho eclesiastes, em busca sempre do mundo e da iluminação. Por isso sempre tinha alguma resposta para aquelas questões pungentes. Mas ele olhava da janela, as ruas com suas passagens, o horizonte, os pássaros e os livros. Não havia quem o entendesse, que desse conselhos para ele. O conselheiro estava sozinho. Ninguém entenderia esse homem tão sábio, os seus livros deram conta para apenas para os outros. - "E eu? perguntava de sí para sí, tudo dos outros está superado, mas eu?"

segunda-feira, 2 de maio de 2011

a lenda do reizinho - pulsão de morte



Conheci um reizinho tirânico que ficou no poder de um estado durante muito tempo, mas aconteceu como sempre acontece: ele morreu. Mas os seus súditos adiaram mais a sua morte. O reizinho morreu, mas ninguém ficou sabendo. Guardaram segredo de Estado e morreriam todos aqueles que dissessem a verdade. Fizeram imagens de discursos, apresentações e quase todas as semanas saíam uma nova polêmica sobre ele. Tudo como se ele estivesse vivo... e nada estivesse acontecido. Quando descobriram que ele foi morto a multidão vibrou, pois achavam que ele encarnava o mal. Entrou outro reizinho em seu lugar. Ora, o problema não era o reizinho era a peste da tirania que estava lá muito bem assentada em tronos milenares, em cargos eternamente vitalícios, empunhando espadas e tropas em segredo e invisíveis como o andar silencioso da pulsão de morte...

sábado, 30 de abril de 2011

obsessiva



Inventar
certezear e serpentear
Enxergar onde não tem
Ou tem?
Enxertar pensamento no outro...
Ou o Outro enxertado no pensamento?
Mente que
secreta pensamentos 
Duvidantes? videntes? Evidentes?
Andantes?
Errantes...

Flutuantemente errantes

terça-feira, 26 de abril de 2011

As profecias do Polvo Paul





























Na época da copa do mundo 2010, para quem estava acompanhando os noticiários mais bobos ou mais ingênuos, viu que existia um "profeta" que previa qual seleção iria ganhar a partida. Esse "profeta" era o Polvo Paul. Com muitas resistências para acreditar em tal coisa, pensei que uma brincadeira. Brincadeira boba? As crianças dizem muito quando brincam... Não sei, sinceramente! Parece que não foi o homem que saiu dos trilhos, mas o mundo, como dizia Hannah Arendt...
Essa incoerência em acreditar em "profecias de polvos" é o que mais me espanta! Parece que estamos tanto desacreditados, mentirosos, nossas notícias nada falam, como se outras coisas desligadas da lógica humana pudesse dar respostas aos emaranhados do mundo... demandam certezas, que procuramos silenciosamente esconder e queimar verdades. Demanda-se respostas aos objetos, fúteis razões em animais: em um polvo com seus tentáculos incertos, em mais uma tentativa em vão de dar coerência ao incoerente, caindo no vão. Assuntando respostas que não tem, e dar uma cara ao Real que não tem cara, assim como mandar cartas para endereços ausentes...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

o vendedor de naftalinas

Todos os dias quando passo pelas calçadas de minha cidade, vejo um vendedor de naftalinas sentado no chão em uma porta de uma loja vendendo naftalinas. Mas todos os dias elas se sublimam. Não compreendo essa insistência tamanha em vender algo que se sublima e desaparece todos os dias, numa venda inútil, atividade unútil. Talvez para este trabalhador não seja uma questão importante em gastar seu lucro diário em bolinhas misteriosas e estar alí por estar. Talvez possa nos perguntar quantas e quantas vezes nos engajamos em atividades inúteis apenas por repetir, recordar mais uma vez, acontecimentos escusos se engajando, se sujando, se sublimando...

herança de palavras



As palavras traumatizam
uma herança imagética, linguageira
incorporal, imoral, nominal
brasão, documento, criação
As palavras traumatizam
e matizam.

deserto falta

Neste deserto chamado Falta
sobrevivi e virei gente.
Passam a vida procurando coisas
coisas e coisas
procuram, em fim, para depois perder:
fazem como as folhas do sertão: nascem para depois morrer

terça-feira, 12 de abril de 2011

Yuri Gagarin - o homem que andou no céu

Pra quem vive esperando cair uma lua do céu, quem planeja jogar uma pedra na lua ou quem vive olhando estrelas e nuvens, é pouco o espanto de saber que o homem já pisou na lua. Seria mais espantoso se ele estivesse pisado no céu, porque o homem somente poderá pisar onde tem chão. São Pedro foi inventar de caminhar sobre as águas e quase caiu, se não fosse alí o Cristo do lado. Hoje completam cinquenta anos que o homem pisou pela primeira vez na lua, e nunca mais voltou a pisar nela. Ele estava sozinho na terra de São Jorge, nenhum outro olho humano viu o que ele viu. Enquanto todos esperavam Gagarin dizer as maravilhas do solo lunar, e as respostas para a humanidade em guerra fria, quentemente ele falou: "A Terra é azul..."
Certa vez aconteceu que ia aparecer no céu um cometa que somente a cada centenário volta a percorrer o campo visível da Terra. Neste dia o observatório astronômico estava lotado e não pude comprar um ingresso. Mas pude ver a olho nú da janela de meu quarto. Fiquei a imaginar: os meus antepassados viram o que eu acabei de ver. Eu vi o que eles verão, daqui a cem anos os outros verão o que eu ví, e não estarei mais aqui, para dizer o que eu vi. Já dizia Hemingway que a distância nos dá a perspectiva, é verdade isso que ele falou e
Gagarin foi o único homem que viu a perspectiva da Terra, e da Terra eu ví a perspectiva do mundo feito pelos homens, dos homens siderais, que comem nuvens e céus de todas ordens...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

sábado, 9 de abril de 2011

passajeitos

foi olhando para as nuvens
que perguntei a elas
de onde vem tanta beleza
se tão efêmeras e passageiras elas são...
se as nuvens mostrassem os seus segredos
aos homens entenderiam a lição
então perguntei ao vento
de onde vem tanta beleza
se tão leve e rápido ele é
as pessoas aprenderiam muita coisa
pois os homens são
como as nuvens e como os ventos

Gato Vadio



Gato vadio
Que se esconde no mato
Não perde o seu rastro
Não foge de mim!
Gato vadio
De pelo macio
De olho perdido
Assim bem assim
Bicho felino
Correndo assustado
Atrás de um rato
Não é bem assim!
Felino assustado
Não deixa quem pegue
Só corre assim
Gato não beija: só mia
Se tu não me pagas
Me deixa assim!
Gato vadio
Que chega assustado
Miando de lado
Para perto de mim
Chega, miando, carente
Para um leite bem quente
Vir aparecer.
Lá vai no telhado
Pulado nos muros
Miando noturno
Vem aparecer
Assustado que corre
De olho brilhante
O pulo atacante
A desaparecer
Vai gato vadio!
Teu lar é a rua
Lençol é relento E brigas de rua.

Ser: Tão Veredas


Sertão,
Às vezes eu te vejo tão solitário
Entre o Brasil e o Atlântico
Sabe deus quantas almas
Perderam o seu nome em tuas
Terras cristalinas.
Vejo-te tão perto de mim
E ao mesmo tempo longe
Longe de ver tuas secas
Seus horrores
Pois nasci em teu chão
Fui formado de areia e vento
Bebo a água toldada pela tua terra
Em meus pés há raízes
Sabe lá onde param
Nasci na beira da água
Do chamado acaraú
Filho das famílias pioneiras
Que primeiro colonizaram o sertão
Ainda há em meus olhos
O mesmo espanto
Dos meus antigos pais
Ao ver o sertão tão imenso
Eu te vejo solitário.
Que dirá de ti?
Ora, que dirá de ti?
Entre pedras brutas e sem brilho
Solitário de elogios
Fazendas perdidas e abandonadas
No distrito sem nome
Mais escondido do Brasil
Sertão ausente de estradas
Medievo, espantado
Sertão sem nome bonito, ermo
Sem estrangeiro
Excluído e hostil
Vejo os teus matagais no horizonte
Parecem lanças de guerreiros
Postos para a guerra
Que guerra...!
Ao qual foi negado a água
A criação cristalina de Deus
Mas ora vejo espantado
De tudo que há em ti....

sábado, 2 de abril de 2011

O homem que comprou chuva do Pe. Cícero



Minha avó contava algumas histórias sobre Canindé e Juazeiro, eram lugares onde a presença da religião sempre foi muito forte. Uma história bastante interessante era contada quando algo da religião era condenado ou desafiado. Ela levantava a mão e contava a história do homem que comprou chuva do Pe. Cícero. Minhas tias e minha mãe quando eram bem pequenas aprenderam também esta história e agora para os netos...
Num lugar em que as chuvas são escassas e numa época de bastante seca, um fazendeiro assim como tantos outros necessitava de chuvas para alimentar sua lavoura e seus rebanhos.
Nesta época a fama que o santo padre obrava milagres era tanta que muitas pessoas faziam romarias e alcançavam tantas graças. Então o tal fazendeiro resolveu recorrer aos poderes que não eram humanos, mandando uma carta para Juazeiro comprando com uma quantia de 10 mil contos de réis, chuvas para a sua propriedade. Padre Cícero respondeu a carta muito solícito e disse que dez mil réis "era muito de chuva", poderia acabar com tudo, só bastava trinta mil e mandou o troco de volta. Mas o tal fazendeiro queria mais e mandou novamente uma carta com os setenta mil. O padre fez conforme o pedido. Foi uma chuva torrencial que destruiu tudo, levou gado, derrubou árvores, só restou a casa e a vida das pessoas para contarem a história. Tudo isso aconteceu somente nos limites daquela terra, as fazendas dos vizinhos ficaram sem cair uma gota de água. Eu nunca acreditei direito nessa história, mas minha tia em uma fila de banco contou essa mesma história para uma senhora e esta respondeu:
- É verdade, eu sou a filha deste fazendeiro...



sexta-feira, 25 de março de 2011

tempo


dentro de um segundo
estão embutidos
outros tantos segundos
como o segundo decisivo da imagem...

lugar e espaço


O espaço é dos objetos
O lugar é dos existentes...
Causa-me estranheza
voltar
aos lugares onde andei:
eu não estou neles
mas eles estão em mim...
Sensação de voltar aquilo
que um dia ja se viveu.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Crianças ou e Igrejas


Tenho o costume de todos os domingos ir para a igreja. E é costume de muitos tempos, ensinado, aprendido, gostado. Logo a missa, que é um rito e necessita de muita atenção, silêncio. Mas de vezenquanto acontece que todo esse silencio é cortado, pelos erros dos cantores ou dos padres ou coroinhas, quando algum louco fica falando com as pessoas ou quando algumas crianças gritam, correm em meio aos corredores ou choram ecoando pelos arcos, púlpitos e altares. Parece que as igrejas e crianças não dão muito certo, desconcentram os fiéis, os pais ficam correndo atrás das crianças... mas um certo padre dizia vendo a aflição das mães: 'deixem que esses meninos corram por aqui, podem deixar! Eles estão louvando a Deus..." não é à toa que sua igreja está repleta de crianças brincando enquanto se reza a missa.
Certo domingo incomodei-me bastante com um menino, enquanto brincava com um carrinho por baixo dos bancos. Virei-me e encarei os pais e o próprio menino. Ao mesmo tempo refleti sobre o que eu fiz. Muitas vezes penso, que elas aprenderão a ser tão sisudas e acharão, um dia, que deixarão para trás o ser infantil. Mas além disto, fiquei me perguntando sobre essa nossa própria sisudez, as crianças são personagens que quebram o provável, desconcerta, desconcentra. Resistência.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O grito dos excluídos

Certo dia, numa daquelas manhãs quentes de verão, nos tempos memoráveis de colegial, foi organizada uma marcha denominada Grito dos excluídos, com a participação de todos alunos, valendo nota, listas de frequência, algazarras, caras pintadas... coisas de menino de colégio. Quando começou a passeata colocamos faixas que a escola tinha feito e passamos a caminhar pelas ruas, chamando atenção do trânsito da cidade. Em certo ponto do percurso, passamos em frente ao abrigo de idosos. Talvez poucas pessoas imaginaram o que poderia se passar por trás daquelas paredes amarelas mal pintadas, ou lançaram um olhar curioso por trás daquelas janelas pontiagudas poucos, muito poucos. Daquele casarão nenhum barulho, rumor ou movimento saiu em meio a agitação... Quando percebi uma idosa lá do fundo se aproxima da janela e acena para fora. Quem além de mim viu esta cena? Verdadeiramente, para mim, aconteceu naquele momento um grito dos excluídos. Não precisou de interlocutores, não precisou de pena, eles lá dentro nem sabiam quem éramos nós e nós do lado de fora nada sabíamos de grito. Para mim mais do que nota, ganhei a (possibilidade) capacidade de ver que os excluídos clamavam por outras portas, em outras janelas e em outro chão...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Qual é a vossa sujeito Broken $?



beijando lesmas vociferando velocidades ou cidades comendo borboletas suicidar sonhos plantando desertos e semeando solidões...muitas vezes assassinado sonhos embriões muitas vezes eu vejo
que esse é o destino
destinho do mundo...bolores dos mundos, dolores desmundos,
insensatos, insanos, enganos
ciganos roteadores
de males vidraceiros

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O dia em que eu ví John Lennon!

senti uma presença e ví: era John Lennon dos Beatles

Quando chegava o domingo quase nunca saíamos de casa pela tarde. E depois de morarmos pelo menos três séculos em uma mesma casa, numa mesma rua e vendo os mesmos vizinhos ainda temos muito que ver e o que aprender sobre o que passa na nossa lacônica vizinhança. Sobre todos que passam do nosso lado todos trombudos e meio bobos sem nos conhecer direito.
  Havia um vizinho que morava há alguma distância de nossa casa. Alguém. E todos aos domingos escutávamos uma música que vinha de sua casa. Era daquelas músicas antigas que não toca nas rádios. Aqueles artistas desconhecidos de outras décadas que o tempo se encarregou de apagar a lembrança dos mais esquecidos. E todos os domingos a música soava de leve, que não incomodava os mais incômodos, soava com o vento quente das tardes...
  Até que aconteceu naquelas vezes que então fui impelido para fazer algo fora de casa. Então deu-me uma vontade de me encontrar com o nosso vizinho. Mas por acaso, sem fazer nenhuma questão de conhece-lo, somente para passar diante da casa e saber quem ele é. Abri o portão e segui por onde as pernas me levavam na vizinhança e aos redores de minha casa em direção do nosso antigo vizinho. Foi como um momento de vigilância aos arredores da casa. Mesmo que o vizinho não portasse o perigo, mas por pura curiosidade.
   Quando eu parei de frente a casa senti uma presença e eu me virei, olhei: era Lennon, John Lennon! O susto foi enorme e quem não teria? Estar de lado daquele astro rastro da música. Deu-me medo e quem não teria? Olhei assustado e quem não olharia? Pois todos disseram que ele estava morto, e eu acreditei! Há séculos que eu acreditei, há milênios! Foi estranhíssimo.
  Falo em milênios embora sejam alguns anos. Mesmo que seja um simples boato, acreditei como alguma verdade dita há milênios.
    Para falar a verdade eu queria que ele estivesse morto! Lennon você morreu, não existe, você é uma mentira! Eu preferiria a verdade a mentira: ele é uma mentira! Eu não posso conceber que alguém que todos acreditam que esteja morto, no entanto, está vivo. Será que não param de inventar mentiras? Será que terá alguém mais vivo enquanto todos pensam que... Eu não acredito nisso! Afinal que me garante que ele realmente existiu?
   Lennon, você existe?
   E fiquei pensando enquanto se passaram alguns minutos ele olhou para mim e deu uma risada. Ora ainda gente que está morto ainda ri? Lennon não, preferiria outros...Ele parecia tão real era mais real que eu, pois eu o sentia mais que a mim. Deu-me uma vontade enorme de gritar: eu vi Lennon a 17 de ... no ano de... em ..., mas se eu contasse para os outros ninguém acreditaria. E as leis? Se eu fosse na delegacia dar parte? Acredito que a lei serviria para esses fins...é bem verdade. Mas era domingo as ruas estavam desertas.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sobral - reminiscências familiares



Certo dia conheci um grande genealogista e ao perguntar sobre o meu sobrenome, me trouxe uma lista enorme de pessoas, datas, antepassados, parentes ilustres, outros desconhecidos, dos primeiros que colonizaram o sertão... como um grande rio onde milhares de pessoas já se passaram. Mas sem se tocar do que estava falando, era de muita vida e também de morte, gerações inteiras, milhares que se casaram entre sí, descenderam e se tornaram descendentes e não existem mais. Foi um mal de morrer. "Era uma tal de morte" que esse grande homem falava. Ele estava costurando gerações, nomes, datas, origens, sestros que se passavam de gerações para entender "essa tal de vida"e como um enigma sobre a minha própria origem eu procurava para trás... para ver o futuro...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011


Tal qual as gotículas d'agua flutuam sobremaneira nas folhas das plantas, eu costumo também florar, flotar, flotar vendo. Quando muito evaporar, sendo poroso, passageiro, plantado que nem uma gota de chuva. As superfícies ficam, enquanto eu vou me embora, embora...

Só poderemos reconhecer o sentido com algum recuo, quando desprendidos de nossa ação, estaremos menos tomados por nossa paixão de agir. Na verdade, caímos na armadilha da realidade e de suas repetições, sobre as quais se articula nossa razão lógica que esconde o Real, que surge imprevisível.
Françoise Dolto

meia boca



O Inconsciente não deixa senão traços

sábado, 22 de janeiro de 2011

verso rupestre



O meu verso é rupestre
É gravado nas pedras
E escrito com os materiais da terra
E sobre esses materiais formam meu canto

trans-figuração

Quero sentar entre dunas e olhar para o mar
Vendo o sol se por
E meus pés andarem sobre areias da praia
Enquanto as vagas do mar
Me saúdam e voltam...
Quero um pôr do sol e olhar para o céu
O céu lindo e azul do Brasil
Dar um abraço nos amigos queridos
Na paz dos sertões
E viver a vida como se sempre em férias
Ver o vento zoar
Quero nuvens, céu, água e mar
Quero luz, quero vida
Quero quero
Ver a imensidão do mundo
É ver as possibilidades que me esperam
Ter a alma encharcada de vida
E transfigurada o tempo todo
Em forma de poesia...

verso

Quantas saudades você me traz...
As florzinhas brancas que nasciam na calçada
Nove-horas e flores bravas do sertão
As conversas levadas pelo vento.
Quando o dia escurece, eu me sinto triste
Por não falar com você
No brasilsão de meu Deus
Sua fala verde, seus olhos castanhos, que me lembram o azul
Do meu sertão tão querido
Era tão bonito te ver, sertão, nossa fala domingueira
Trajada pelo familiar
O silêncio entrecortado pelos
Nossos risos infantis
Gosto tanto de tuas cores primárias
E da beleza dos campos não cultivados
É quando enterro os meus pés na areia
E sinto:
Logo criam raízes
Para beber nas tuas fontes mais profundas